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| Valdir Barranco |
O pacote de maldades de Bolsonaro
vai além das famigeradas reformas trabalhistas e da previdência que relegam os
trabalhadores a miséria e “à morte” como aposentadoria. No conjunto que ele
chama de “reformas econômicas” está também a Proposta de Emenda Constitucional
(PEC) que sugere alterações no Pacto Federativo. No bojo, a retirada da
autonomia financeira de estados e municípios contrariando a Constituição da
República que garante a autonomia dos entes federativos.
A Carta Magna do país diz em seu
artigo 1º que “A República Federativa do Brasil, formada pela união
indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em
Estado Democrático de Direito […]”. No artigo 18, deixa claro que “A
organização político-administrativa da República Federativa do Brasil
compreende a União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios, todos
autônomos, nos termos desta Constituição”
Fica claro então, que nosso
sistema político-econômico é descentralizado. Portanto, não está “nas mãos” do
governo federal e funciona como uma federação onde estados e municípios possuem
governos próprios e autonomia nas decisões locais. Governadores não estão
subordinados ao Presidente da República, tampouco mandam nos prefeitos.
O Pacto Federativo estabelece
obrigações financeiras, leis, sistemas de arrecadação de recursos e os campos
de atuação de cada ente federativo. Define como os tributos arrecadados pela
União serão distribuídos entre os três níveis de governo, além de determinar
como as receitas serão direcionadas para despesas obrigatórias, nas quais os
governos não podem mexer; despesas vinculadas, que recebem, obrigatoriamente,
um percentual fixo das receitas; e as despesas discricionárias, que podem ser
manejadas com mais liberdade pelos políticos.
Bolsonaro quer alterar tudo isso
passando a ditar a maneira como estados e municípios devem arrecadar receitas e
dividir as responsabilidades entre si; beneficiando a União com a criação de
Estado mínimo. A proposta é colocar em prática os ‘3Ds’: desobrigar, desindexar
e desvincular. Ou seja, descentralizar os recursos públicos e desvincular
receitas de determinadas despesas.
A tal PEC propõe, por exemplo,
que municípios com até cinco mil habitantes deverão comprovar, até dia 30 de
junho de 2023, sua sustentabilidade financeira: arrecadação de impostos
correspondente a no mínimo 10% da receita total, sob o risco de incorporação
dos mesmos aos municípios de onde foram originados. Portanto, decretando a
extinção dos pequenos em favor dos maiores, mas sem que para isso aumente os
repasses federais à nova cidade.. Portanto, o novo Pacto traz em seu bojo
prejuízos sociais irreparáveis pela falta de infraestrutura para incorporação
das duas cidades.
Os investimentos em saúde e
educação também sofrerão mudanças graves. Hoje, estados e municípios devem
empregar 25% da receita em educação, enquanto a União aplica apenas 18%. Para saúde pública a alíquota é de 12% para
estados e 15% para municípios. A PEC prevê a unificação das alíquotas entre os
entes federados. Significa que passaríamos a uma cota única sob a justificativa
“de se dar mais liberdade para os gestores compensarem os gastos de uma área
para outra.” Se isso ocorrer, saúde pública e educação estarão fadadas a
investimentos ínfimos, aumentando a desigualdade social.
A proposta também quer manter a
Lei Kandir, que garante a isenção de ICMS sobre as exportações de produtos
primários, semi-elaborados e serviços; lei ultrapassada que causa enormes
prejuízos aos estados exportadores e beneficia apenas os grandes produtores. Em
Mato Grosso, há anos lutamos pela taxação do agronegócio para aumentar a
arrecadação estadual e obrigar o governo
a investimentos sociais; entre eles o financiamento da agricultura familiar e a
ampliação da oferta de educação para os jovens do campo.
A PEC propõe ainda, a criação de
um Conselho Fiscal da República encarregado de monitorar a política fiscal e a
preservação da sustentabilidade financeira da União, dos estados e municípios.
Conselho formado pelos presidentes da República, da Câmara dos Deputados, do
Senado Federal, do Supremo Tribunal Federal, do Tribunal de Contas da União,
além de representantes dos governos estaduais e municipais que deverão se
reunir a cada três meses. Ora, por que não inserir no grupo representantes da
sociedade civil organizada? Isso cheira mal!
O pacote de maldades cria,
também, um gatilho de emergência fiscal que pode ser acionado pelos entes
federativos quando a chamada ‘regra de ouro’ for descumprida. Tal regra proíbe
que o governo contraia dívidas para pagar despesas correntes com manutenção de
atividades da administração pública, como despesas com pessoal, serviços de
terceiros, manutenção de equipamentos, etc.
No caso da União, o “acionamento
do gatilho” depende da autorização do Congresso. Estados e municípios podem
acioná-lo sempre que as despesas correntes ultrapassarem 95% da receita que
provém de tributos, exploração do patrimônio estatal, etc. O gatilho ainda
autoriza a redução da jornada de trabalho dos servidores em até 25% com redução
de salários na mesma porcentagem.
Além das medidas já descritas, a
PEC do Pacto Federativo ainda prevê a desvinculação de receitas públicas de
órgão, fundos e despesas; a proibição do socorro da União a estados e
municípios em dificuldades financeiras; a extinção do Plano Plurianual e a
restrição de créditos a estados e municípios. Para Bolsonaro, a PEC objetiva
assegurar o fortalecimento fiscal da República e trazer incentivos à uma boa
gestão de todos os entes federados. Será? Como falar em fortalecimento fiscal
sem pensar em políticas sociais justas e dignas para os brasileiros.
A reforma do Pacto Federativo
direciona os recursos públicos aumentando a desigualdade regional, já que inibe
a obrigatoriedade do orçamento público. Mais uma medida nefasta deste
DESgoverno que já acabou com os direitos trabalhistas, com a previdência social
na iniciativa privada e no poder público e que agora quer acabar com o que
sobrou do Brasil.
*Valdir Barranco é presidente
estadual do Partido dos Trabalhadores em Mato Grosso, deputado estadual e
pré-candidato ao senado.
Robson Fraga/NG Noticias

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