| Ex-deputados José Riva e Humberto Bosaipo são apontados como líderes do esquema. |
De acordo com depoimento de
ex-gerente do Banco Real, frsas em consignações só foram reveladas após um
morador de Palmas tentar fazer empréstimo e descobrir que seu nome já estava
com restrição e constava como servidor da ALMT.
O esquema de desvio de R$ 3,7
milhões da Assembleia Legislativa de Mato Grosso (ALMT) no ano de 2001 por meio
de empréstimos consignados fraudados junto ao Banco Real só foi descoberto
porque o nome de um servidor de Palmas, no Tocantins, foi utilizado
indevidamente pela organização criminosa, supostamente liderada pelos ex-deputados
estaduais José Riva e Humberto Bosaipo.
“Criamos uma estrutura na
Assembleia e coloquei uma funcionária lá para fazer os atendimentos. Eu lembro
que ia lá e tinha fila para fazer empréstimo”, relatou em depoimento o
ex-gerente do Banco Real.
É o que revelou o ex-gerente do
Banco Real, Célio Carlos dos Santos, responsável por ter firmado o convênio de
empréstimos consignados entre a Assembleia e o banco, na época dos fatos.
Segundo ele, as tratativas foram
feitas com José Riva e Humberto Bosaipo, que ocupavam os cargos de presidente e
primeiro-secretário na Mesa Diretora, além de Guilherme Garcia, que era o chefe
do setor financeiro da Casa.
A proposta inicial do banco era
que os empréstimos seriam destinados apenas a servidores efetivos, mas, a pedido
dos parlamentares, acabou-se abrindo exceção para comissionados, desde que
contassem com a assinatura de um deputado como avalista.
“Criamos uma estrutura na
Assembleia e coloquei uma funcionária lá para fazer os atendimentos. Eu lembro
que ia lá e tinha fila para fazer empréstimo”, relatou em seu depoimento Célio
Carlos.
Ele conta que após feitos os 166
contratos de empréstimos, a Assembleia passou a pagar o banco mensalmente,
geralmente com atraso de dias, mas os pagamentos eram realizados ao banco normalmente
até que, um dia, Célio recebeu uma ligação de outro gerente do Banco Real em
Palmas (TO), relatando que um cliente que tentava fazer um financiamento foi
impedido por conta de uma restrição ligada ao empréstimo consignado na ALMT,
sendo que ele jamais teria sequer vivido em Mato Grosso.
Diante de tal situação, esse
cliente do banco Real em Palmas veio a Mato Grosso procurar a Assembleia
Legislativa e o Ministério Público para denunciar o uso indevido de seu nome
para a transação financeira, o que gerou toda a investigação.
"Ele nunca havia sido
funcionário da Assembleia. Por conta desse fato e da restrição bancária que ele
teve lá em Palmas que ele veio deu notícia e isso foi revelado. Um dos aspectos
que começou a Arca de Noé foi por isso, em 2001”, disse.
Ao , o promotor de Justiça Sérgio
Costa confirmou que esse fato foi o que deu início a um dos aspectos da
Operação Arca de Noé.
“Um cliente do banco lá de Palmas
tentou fazer um financiamento real no nome dele e verificou a restrição
bancária. Ele foi informado que o nome dele foi usado para um financiamento em
Cuiabá, sendo que nesse financiamento de Cuiabá ele estava qualificado como
funcionário da Assembleia Legislativa. Ele nunca havia sido funcionário da
Assembleia. Por conta desse fato e da restrição bancária que ele teve lá em
Palmas que ele veio deu notícia e isso foi revelado. Um dos aspectos que
começou a Arca de Noé foi por isso, em 2001”, disse.
O ex-gerente do Banco Real, Célio
Carlos relembrou que, naquela época, o caso ganhou grande repercussão na mídia
e ele chegou a ficar em uma situação “complicada” por conta da exposição e da
suspeita de que ele tivesse algum envolvimento na fraude.
“Ficou complicado para mim porque
minha família ficou exposta na imprensa, isso durou um tempo até surgir outros
bancos, que tinham volume maior em negociações com a Assembleia”, disse Célio,
se referindo a outros esquemas descobertos na Assembleia.
“Eu fiquei muito chateado porque
ficou a impressão de que eu tinha feito a operação, quando, na verdade, a
alçada de gerente de banco está muito longe desse valor”, afirmou a
testemunha.
De acordo com o promotor,
realmente o esquema foi realizado apenas por parte da Assembleia Legislativa,
tendo o banco sido “usado” para o esquema de desvio e lavagem de dinheiro.
“O banco foi usado para fazer a
operação comercial e a Assembleia fornecia toda a documentação respectiva. Para
o banco, os documentos eram válidos, oficiais. Quem falsificava era a própria
Assembleia. O banco se viu alvo de um processo gritante de lavagem de dinheiro
porque eles [grupo da Assembleia] pegaram dinheiro de operações ilícitas, de
contratos fraudulentos e lavaram esse dinheiro no banco Real”, explicou Costa.
"O banco se viu alvo de um
processo gritante de lavagem de dinheiro porque eles [grupo da Assembleia]
pegaram dinheiro de operações ilícitas, de contratos fraudulentos e lavaram
esse dinheiro no banco Real”, explicou Costa.
Ato de desespero
Ao promotor Sérgio Costa, o
ex-gerente do Banco Real ainda relatou que após a descoberta do esquema, a
Assembleia lhe procurou para fazer a liquidação antecipada de 67 contratos, que
somaram cerca de R$ 1 milhão, pagamento que chamou a atenção pelo fato de ter
sido pago em espécie.
Segundo Célio Carlos, a
Assembleia vinha sempre pagando os empréstimos por meio de cheques de outras
pessoas jurídicas.
Para o ex-gerente, este pagamento
foi realizado de forma abrupta porque provavelmente se tratavam de contratos
fraudados, ou seja, de pessoas que sequer eram servidores da Assembleia, como
já ficou demonstrado que ocorreu, em outros depoimentos.
Na ocasião, Célio Carlos disse
que chegou a oferecer um carro forte para que a Assembleia levasse o R$ 1
milhão até a agência para efetuar o pagamento, o que foi recusado. O então
servidor Luiz Eugênio de Godoi é quem levou o dinheiro em espécie até o banco.
Na época, a investigação já
estava em estágio avançado, já tinha ido a público. Esses 67 contratos foram
quitados antecipadamente porque provavelmente também não eram de servidores da
assembleia, ou seja, seriam fraudados.
Foi só depois disso que o banco
fez uma auditoria nos contratos e descobriu que os documentos fornecidos pelo
próprio setor de Recursos Humanos da Assembleia continham informações
inverídicas, como por exemplo, os salários dos servidores, que estavam muito
acima do que realmente eles recebiam, para viabilizar o empréstimo de quantias
mais altas.
Ele apontou ainda o então chefe
do setor de RH, Agenor Clivatti, como o responsável por essas informações.
Agenor também é réu em ação separada.
“Para nós era difícil de ter esse
entendimento na época porque toda a documentação vinha do RH”, afirmou.
Para o promotor Sérgio Costa, o
relato de pagamento antecipado de R$ 1 milhão feiro pela Assembleia se mostra
um “ato de desespero” na tentativa de disfarçar a falcatrua.
“Dos contratos que poderiam dar
trabalho para eles, os mais gritantes, os mais irregulares eles fizeram essa
quitação antecipada”, disse ao .
Ainda sob os questionamentos do
promotor Sérgio Costa, Célio Carlos ainda confirmou que, por exemplo, uma servidora
que tinha como salário R$ 1,3 mil recebeu financiamento de R$ 17 mil, o que ia
contra a política de consignados, que determinava que o empréstimo não podia
ultrapassar duas vezes o salário da pessoa.
“O depoimento da testemunha
Célio, do banco Real, vem confirmar a afirmação de que inclusive a Assembleia
falsificava os holerites dos servidores para que dessem margem aos valores dos
financiamentos. A estratégia do banco era que o financiamento nunca poderá ser
superior ao dobro do vencimento do servidor. A gente viu empréstimos de R$ 17
mil, de R$ 25 mil, de R$ 30 mil de pessoas que ganhavam R$ 600. Ou seja, eles
[Assembleia] falsificavam os holerites para que a pessoa tivesse margem de
crédito com o banco”, concluiu o promotor ao final da audiência.
Entenda o caso
Em 2001, os servidores da
Assembleia estava há cerca de cinco meses sem receber seus salários, além de
férias e outros vencimentos atrasados. A solução apresentada pela Secretaria de
Gestão de Pessoas, na época, foi que os trabalhadores fizessem empréstimos
consignados em massa junto ao Banco Real, que seriam pagos pela Casa.
Ocorre que dos 166 contratos
firmados com o banco, apenas um foi verdadeiro, os demais foram fraudados e
nenhum servidor recebeu de fato o empréstimo. Holerites e assinaturas de
servidores teriam sido falsificados para garantir altos valores em empréstimos
que, na verdade, teriam beneficiado apenas os membros do grupo criminoso que
arquitetou o plano, segundo o MPE, sob o comando de José Riva e Humberto
Bosaipo, que respondem em ações penais separadas.
CELLY SILVA
DA REPORTAGEM
DA REPORTAGEM
Repórter MT
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