| Superlotação é um dos problemas no sistema prisional de MT e do Brasil. |
A cena remete a uma outra, de
menor extensão mas também sanguinária, registrada ano passado em Água Boa (730
quilômetros a Leste de Cuiabá) como um sinal. Um detento foi assassinado e
esquartejado e pedaços de seu corpo foram localizados em novembro do ano
passado, na rede de esgoto da Penitenciária Major Zuzi Alves da Silva. O corpo
seria do homicida Leandro Real Pereira, 24, conhecido como “Coringa”, único não
identificado na contagem de volta para as celas naquele dia. O material humano
ainda passaria por exame de DNA para comprovação oficial. Os pedaços de carne
humana foram achados depois que foi detectado o entupimento em um dos canos de
esgoto. Funcionários se depararam com o mau cheiro e os restos de carne
putrefata ao abrir uma caixa de contenção. A informação é a de que Leandro era
do Comando Vermelho (CV) e teria sido atacado por inimigos do PCC.
O presidente do Sindicato dos
Servidores Penitenciários do Estado de Mato Grosso (Sindspen-MT), João Batista,
afirma que o clima é tenso. Afirma ainda que há integrantes do CV e PCC nos
presídios de Mato Grosso e um deles é, por exemplo, Renildo Silva Rios, o “Nego
Renildo”, do Comando. Diz que a maior parte deles está na Penitenciária Central
do Estado (PCE), onde a situação é mais convulsivante, já que no antigo
Carumbé, que hoje se chama Centro de Ressocialização de Cuiabá (CRC), cumprem
pena presos de alta periculosidade mas que já estavam em reta final no regime
fechado e aptos a trabalhar. “Essa situação em Manaus trouxe sim maior
apreensão”, diz João Batista. “A gente já tem a informação de que o CV e o PCC
já teriam passado um ‘salve’ para fortalecer a disputa em todo o país”.
Segundo o sindicalista, há
indícios de que há criminosos em Mato Grosso, que estão em liberdade,
articulando para dinamitar muro de presídio para fazer resgate. A Secretaria de
Estado de Justiça e Direitos Humanos (Sejudh), responsável pelo sistema
prisional, está em vias de ser extinta, para o desmembramento das duas
responsabilidades. Uma nova secretaria também está em vias de ser criada para
cuidar exclusivamente do sistema prisional e as questões correlatas aos
Direitos Humanos serão encaminhadas pela Secretaria de Estado de Trabalho e
Assistência Social (Setas).
Enquanto esse trâmite não se
conclui, o ex-secretário de Estado de Justiça, Marcio Dorileo, já colocou o
cargo a disposição e a pasta está sendo conduzida pelo secretárioadjunto de
Administração penitenciária, Fernando Lopes. Ele também admite o clima de
preocupação, diante do massacre em Manaus. “É preocupação constante com motins
e rebeliões”, diz Lopes. Conforme o adjunto, o que ameniza a tensão é o fato
dos agentes prisionais de Mato Grosso serem maior parte de carreira e muito
qualificados para atuar em situações extremas. O líder da categoria concorda
que isso é verdade, mas destaca que parte dos servidores, que lidam com presos
na rotina, fizeram cursos por conta própria, principalmente no Rio de Janeiro e
em Brasília. “Fizeram por conta própria porque queriam prestar um serviço de
qualidade e com segurança, para todos, inclusive para si mesmos”, comenta o
presidente do Sindspen, João Batista.
Segundo ele, em 2016, os agentes
prisionais, em revistas de rotina, retiraram das mãos dos presos 1.515
celulares, 1570 chips de celulares e 26 quilos de drogas. “Se fôssemos em maior
número poderíamos trabalhar ainda melhor, já que celular é ‘arma’ dentro de
presídio usada para articular o crime”, observa.
Para atender 58 unidades
prisionais em Mato Grosso, entre elas a PCE e o antigo Carumbé, há 2.450
agentes prisionais. “Essa quantia seria suficiente, mas o problema é que
somente 1.800 estão em atividade fim e os outros estão trabalhando no setor de
inteligência, na corregedoria na administração, em audiências de custódia e
alguns são diretores de unidades”, explica. Na superlotada PCE, 30 agentes
cuidam da segurança de 2.200 presos. “Precisam saber de toda a movimentação na
unidade, o tempo todo”, comenta João batista, sobre a responsabilidade que este
serviço exige.
Mediante a tragédia em Manaus, a
mídia divulgou levantamentos sobre o número de mortes violentas no sistema
prisional do país. Foram 378 ao todo em 2016. Isso tem repercutido muito mal
inclusive no exterior. A supelotação também motivou levantamentos. O Estadão
informou que em Mato Grosso há 6.638 vagas e 11.300 detentos. Um déficit de
4.662.
Superlotação
Dia 9 de dezembro do ano passado,
o juiz da Vara de Execuções Penais de Cuiabá, Geraldo Fidelis, fez uma
correição na unidade, e saiu abismado. Embora já conheça a realidade da PCE,
disse que a situação chegou a um extremo em que presos são obrigados a dormir
uns em cima dos outros, formando um “xadrez” de corpos. Alertou que os presos
já estavam falando em matar quem entrasse a mais no sistema prisional. Alertou
ainda que essa situação não pode promover a reeducação de ninguém e sim mais
motins e revolta.
A Secretaria de Estado de Justiça
(Sejudh) reconhece a superlotação e informa que o Estado está investindo R$
63.747.706,35 milhões do orçamento de 2016 em quatro novas unidades prisionais.
Quando estiverem prontas vão abrir 2 mil novas vagas. A unidade de Peixoto de
Azevedo tem inauguração prevista para fevereiro de 2017, seguida da unidade de
Várzea Grande, que deve abrir no segundo semestre de 2017. Também estão
previstas novas unidades para Porto Alegre do Norte e Sapezal.
Keka Werneck, redação A Gazeta
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Todos os recados postados neste mural são de inteira responsabilidade do autor, os recados que não estiverem de acordo com as normas de éticas serão vetado por conter expressões ofensivas e/ou impróprias, denúncias sem provas e/ou de cunho pessoal ou por atingir a imagem de terceiros.