Um fotógrafo brasileiro conseguiu
fotos inéditas de uma tribo da Amazónia que vive em completo isolamento. Estas
fotos mostram detalhes sobre estes índios até aí desconhecidos, como as
pinturas corporais que usam e a maneira como cortam o cabelo.
Esta tribo foi encontrada porque
o helicóptero em que seguia Ricardo Stuckert, fotógrafo brasileiro, com destino
ao Peru teve de fazer um desvio para evitar uma tempestade. Sobrevoando a
floresta amazónica a baixa altitude, o fotógrafo conseguiu identificar um
conjunto de cabanas de colmo – e o seu primeiro instinto foi fotografar:
“Peguei na câmara e comecei a fotografar”, disse ao Guardian “Não tive muito
tempo para imaginar o que estava a acontecer”.
“Fiquei surpreendido”, contou
Ricardo Stuckert ao PÚBLICO: "Em pleno século XXI, temos homens que já
foram à Lua, mas ainda existe um povo que nunca esteve com o homem branco ou
com índios de outras aldeias, com um mundo que não fosse o seu”.
As fotografias, em alta
resolução, mostram uma tribo que vive em total isolamento no estado do Acre.
“Esta tribo já tinha sido fotografada, mas não com a qualidade das imagens que
eu fiz por conta do alcance da lente que eu usava”, explica o fotógrafo.
Ricardo Stuckert fotografa índios
desde 1996 e estava em viagem para retratar outra tribo para o livro Índios
Brasileiros. Seguia no helicóptero com um especialista em tribos indígenas
brasileiras, José Carlos Meirelles. O especialista, que estuda estas tribos há
40 anos, identificou esta em 1980, enquanto sobrevoava o local, num voo da BBC.
Sobre eles, não se sabe muito e
estas novas imagens, em alta definição, vão ser estudadas por peritos. Para já,
sabe-se que a forma elaborada como pintam os corpos e cortam os cabelos são
novidade: “Pensávamos que cortavam o cabelo todos da mesma maneira”, disse José
Carlos Meirelles à National Geographic. “Não é verdade. Pode ver-se que têm
vários estilos diferentes. Alguns são muito alternativos”.
Caçam, pescam e cultivam bananas,
batata-doce, mandioca e amendoins. Usam alguns utensílios de metal para
cozinhar e preparar a terra. No entanto, não se sabe em que língua falam nem
quem são.
“Quando fiz o registo dos
isolados estava acompanhado do sertanista [nome dado a quem participa em
expedições para explorar o território brasileiro] José Carlos Meirelles que
ressaltou, em diversos momentos, a importância de divulgar tais imagens. Como
disse em diversas ocasiões: ‘o mundo precisa saber que eles existem e que
precisamos de políticas para conservá-los’”, lembra Stuckert.
O fotógrafo conta que Meirelles
defende essa tese devido às constantes ameaças que as tribos isoladas sofrem na
região: os madeireiros e garimpeiros invadem o seu espaço em busca de lucro e
matérias-primas. No entanto, para Meirelles, saber onde essas tribos estão
localizadas e divulgar essa informação já é meio caminho andado para dissuadir
esse tipo de comportamentos. “Quando as pessoas sabem que esses índios existem,
esses madeireiros, cocaleiros e garimpeiros não invadem o território dos índios
por medo de represálias”, explica o fotógrafo.
“Não penso fotografá-los
novamente”, afirma Ricardo Stuckert. Apesar do seu fascínio pela “beleza,
brasilidade, pureza e inocência dos índios” o fotógrafo diz que só está a
pensar nas imagens que foram feitas agora. Quanto à repercussão destas imagens,
Stuckert diz que foram “diversas”: “Muitas pessoas elogiaram, outras nem tanto.
Faz parte”.
Mas a importância destas
fotografias, para ele, é enorme: “Eles foram os primeiros povos que habitaram o
meu país. Devemos-lhes tudo. Os índios são os guardiões da floresta, da terra,
dos rios, dos mares. A nossa dívida para com eles é imensa”.
Esta tribo começou a ganhar
atenção mediática quando a Fundação Nacional do Índio brasileira divulgou, em
2008, imagens deles tiradas de outro avião que os sobrevoou a baixa altitude.
Texto editado por Hugo Daniel
Sousa
INÊS CHAÍÇA
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