A primeira parada foi no Centro
Integrado de Segurança e Cidadania (Cisc), na delegacia de polícia do
município. Atendidos pelo investigador de plantão, fomos informados que o
delegado responsável por repassar informações oficiais sobre a situação, André
Luis Barbosa, chegaria a partir das 13h.
Nesse meio tempo, o investigador
nos mostrou e repassou vídeos que recebeu do momento em que disparos são feitos
do alto da Serra da Borda contra viaturas policiais em uma estrada distante. Em
outra cena, imagens de policiais civis em posição de confronto e fazendo
disparos em direção à serra.
Chegando na cidade, fomos
informados que o novo prefeito, Alcino Barcelos (PRB), estava cumprindo agenda
na zona rural, fazendo reconhecimento de pontes. Contudo, conversamos com um
funcionário, que preferiu não ter o nome divulgado. À reportagem ele contou que
não sentiu diferença no clima da cidade e que a rotina não mudou após a nova
invasão.
Na base da Polícia Militar, um
soldado explicou que o coronel responsável não nos receberia, pois estava em
horário de almoço e logo sairia. No entanto, recebemos ali a informação de que
a Sesp havia enviado um grupo com 32 profissionais para ajudar na manutenção da
segurança da cidade. Pouco depois, o fato foi confirmado pelo secretário
estadual de Segurança, Roger Jarbas.
O comerciante, Hércules Silva,
único que aceitou divulgar o nome, disse acreditar que a população está
tranquila, pois os garimpeiros não costumam transitar pela cidade. “Lá em cima
está mais bandido. O pessoal da primeira invasão, que tinha família, não está
mais lá. Essa invasão agora o pessoal está fortemente armado, estão atirando na
polícia. Então você vê que não é legal, né”, completou.
Em seguida, partimos em direção
ao garimpo, que fica a cerca de 30 km saindo da cidade pela MT-473. No caminho
descobrimos que um posto de combustíveis era ponto de passagem de vários
garimpeiros. Percebemos que apesar da rotina da cidade estar aparentemente
tranquila, com pessoas transitando por todos os lados, comércio funcionando,
havia certa tensão quando alguns nos reconheciam como imprensa.
Um funcionário do posto nos
apontou um homem que teria estado no garimpo, e que tentou a todo custo nos
incentivar a adentrar à serra. Durante a breve conversa, porém, outros homens
que estavam no local acabaram se aproximando e alertando do risco que
correríamos, pois a situação atual não era a mesma das outras invasões.
Neste momento, uma jornalista da
rádio local, Karla Penha, nos reconheceu, se apresentou e ligou para outro
repórter que a informou que nenhum veículo de comunicação da cidade havia
estado no garimpo, por considerar o novo cenário perigoso. Diante disso,
entendemos por bem seguir por apenas alguns km pela estrada indicada e fazer
alguns registros fotográficos, tendo em vista que não há barreira policial
indicando até que ponto estaríamos seguros.
Água e comida aos garimpeiros
Ao retornar ao posto, notamos
três moças que aguardavam carona para o garimpo. Elas carregavam uma grande
caixa de isopor com garrafas de água e refrigerante dentro. Levariam a
mercadoria para a mãe de uma delas vender aos garimpeiros. Uma delas topou
conversar, sem revelar o nome ou deixar-se fotografar, sobre o contato com os
garimpeiros.
Essa jovem contou que esteve duas
vezes no garimpo hoje. Disse que boa parte dos garimpeiros anda armado, sendo a
maioria com fuzil. Ela detalhou que há mulheres no local, que são respeitadas
pelos homens. Revelou ainda que é proibida a entrada de crianças e “os homens
só mexem com as garotas de programa”. Durante a entrevista, o trio conseguiu
uma carona até o local e deixou o posto. A tendência é que também estejam sendo
abastecidos com comida.
Mais tarde soube pelo motorista
da equipe que enquanto a entrevistava, um dos homens que estava no posto
criticou a conduta das jovens. “Essas meninas não sabem o que estão fazendo
dando entrevista para esses repórteres. Se os caras ficarem sabendo o bicho vai
pegar para o lado delas”, alertou o homem.
Enquanto estávamos no posto, uma
caminhonete passou lentamente por duas vezes observando o nosso carro de
reportagem, adesivado com a logo do .
No fim da tarde, andamos pelo
centro da cidade na tentativa de encontrar alguém que topasse dar entrevista
abertamente. Sem sucesso. Sempre que sugeríamos a entrevista, recuavam. Um
idoso disse que não costuma “se meter com essa situação”. Um homem de 45 anos
disse achar melhor que o garimpo fosse aberto para toda a população ao invés de
permanecer nas mãos de empresas de fora. “Tem que deixar o povo trabalhar”.
Já uma mulher, aparentando ter 35
anos, disse acreditar que se não tivessem retirado as famílias das outras
invasões, o local não estaria ocupado por bandidos agora.
Foi apenas no final do dia que
percebemos o aumento de viaturas circulando pela cidade.
RDNEWS
Eduarda Fernandes
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