2017/01/06

Bandidos recebem água e comida vendidas por populares em Pontes

selo_garimpo.jpgApós cerca de 5h de estrada, o motorista, o fotógrafo e eu chegamos a Pontes e Lacerda (483 km a Oeste de Cuiabá), na manhã quente e ensolarada dessa quinta (5). O objetivo era sentir o clima da população e entender qual era o cenário depois que a secretaria estadual de Segurança Pública anunciou que o grupo que ocupava o garimpo, pela terceira vez em menos de um ano, era composto por criminosos que faziam parte do Novo Cangaço – quadrilhas de roubos a banco que ocorreram no interior de Mato Grosso.
A primeira parada foi no Centro Integrado de Segurança e Cidadania (Cisc), na delegacia de polícia do município. Atendidos pelo investigador de plantão, fomos informados que o delegado responsável por repassar informações oficiais sobre a situação, André Luis Barbosa, chegaria a partir das 13h.
Nesse meio tempo, o investigador nos mostrou e repassou vídeos que recebeu do momento em que disparos são feitos do alto da Serra da Borda contra viaturas policiais em uma estrada distante. Em outra cena, imagens de policiais civis em posição de confronto e fazendo disparos em direção à serra.
Chegando na cidade, fomos informados que o novo prefeito, Alcino Barcelos (PRB), estava cumprindo agenda na zona rural, fazendo reconhecimento de pontes. Contudo, conversamos com um funcionário, que preferiu não ter o nome divulgado. À reportagem ele contou que não sentiu diferença no clima da cidade e que a rotina não mudou após a nova invasão.
Na base da Polícia Militar, um soldado explicou que o coronel responsável não nos receberia, pois estava em horário de almoço e logo sairia. No entanto, recebemos ali a informação de que a Sesp havia enviado um grupo com 32 profissionais para ajudar na manutenção da segurança da cidade. Pouco depois, o fato foi confirmado pelo secretário estadual de Segurança, Roger Jarbas.
O comerciante, Hércules Silva, único que aceitou divulgar o nome, disse acreditar que a população está tranquila, pois os garimpeiros não costumam transitar pela cidade. “Lá em cima está mais bandido. O pessoal da primeira invasão, que tinha família, não está mais lá. Essa invasão agora o pessoal está fortemente armado, estão atirando na polícia. Então você vê que não é legal, né”, completou.pontes4.jpg
Em seguida, partimos em direção ao garimpo, que fica a cerca de 30 km saindo da cidade pela MT-473. No caminho descobrimos que um posto de combustíveis era ponto de passagem de vários garimpeiros. Percebemos que apesar da rotina da cidade estar aparentemente tranquila, com pessoas transitando por todos os lados, comércio funcionando, havia certa tensão quando alguns nos reconheciam como imprensa.
Um funcionário do posto nos apontou um homem que teria estado no garimpo, e que tentou a todo custo nos incentivar a adentrar à serra. Durante a breve conversa, porém, outros homens que estavam no local acabaram se aproximando e alertando do risco que correríamos, pois a situação atual não era a mesma das outras invasões.
Neste momento, uma jornalista da rádio local, Karla Penha, nos reconheceu, se apresentou e ligou para outro repórter que a informou que nenhum veículo de comunicação da cidade havia estado no garimpo, por considerar o novo cenário perigoso. Diante disso, entendemos por bem seguir por apenas alguns km pela estrada indicada e fazer alguns registros fotográficos, tendo em vista que não há barreira policial indicando até que ponto estaríamos seguros.
Água e comida aos garimpeiros
Ao retornar ao posto, notamos três moças que aguardavam carona para o garimpo. Elas carregavam uma grande caixa de isopor com garrafas de água e refrigerante dentro. Levariam a mercadoria para a mãe de uma delas vender aos garimpeiros. Uma delas topou conversar, sem revelar o nome ou deixar-se fotografar, sobre o contato com os garimpeiros.
Essa jovem contou que esteve duas vezes no garimpo hoje. Disse que boa parte dos garimpeiros anda armado, sendo a maioria com fuzil. Ela detalhou que há mulheres no local, que são respeitadas pelos homens. Revelou ainda que é proibida a entrada de crianças e “os homens só mexem com as garotas de programa”. Durante a entrevista, o trio conseguiu uma carona até o local e deixou o posto. A tendência é que também estejam sendo abastecidos com comida.
Mais tarde soube pelo motorista da equipe que enquanto a entrevistava, um dos homens que estava no posto criticou a conduta das jovens. “Essas meninas não sabem o que estão fazendo dando entrevista para esses repórteres. Se os caras ficarem sabendo o bicho vai pegar para o lado delas”, alertou o homem.
Enquanto estávamos no posto, uma caminhonete passou lentamente por duas vezes observando o nosso carro de reportagem, adesivado com a logo do .
No fim da tarde, andamos pelo centro da cidade na tentativa de encontrar alguém que topasse dar entrevista abertamente. Sem sucesso. Sempre que sugeríamos a entrevista, recuavam. Um idoso disse que não costuma “se meter com essa situação”. Um homem de 45 anos disse achar melhor que o garimpo fosse aberto para toda a população ao invés de permanecer nas mãos de empresas de fora. “Tem que deixar o povo trabalhar”.
Já uma mulher, aparentando ter 35 anos, disse acreditar que se não tivessem retirado as famílias das outras invasões, o local não estaria ocupado por bandidos agora.

Foi apenas no final do dia que percebemos o aumento de viaturas circulando pela cidade.
RDNEWS
Eduarda Fernandes

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