Centenas de milhares de
brasileiros são infectados pelo HTLV-1, o vírus linfotrópico de células-T
humanas, pertencente à mesma família que o HIV, o vírus da Aids.
O Brasil é o país do mundo com
maior número absoluto de casos. O HTLV-1 afeta mais pessoas do que o HIV, a
hepatite C ou a tuberculose. Apesar disso, o vírus recebe pouca atenção. Os
médicos que trabalham com o HTLV-1 denunciam falta de estrutura e a ausência de
ações específicas contra ele.
“Não existe um programa nem
nacional, nem estadual, nem municipal”, afirma Augusto Penalva, coordenador do
serviço de HTLV-1 no Instituto de Infectologia Emílio Ribas. “É a doença mais
negligenciada das negligenciadas. Inclusive,quando se lança um programa sobre
doenças negligenciadas não é incomum deixar fora o HTLV".
Uma das possíveis razões pelas
quais o vírus não é alvo de ações mais enérgicas por parte do poder público é
que a grande maioria dos pacientes é assintomática.
“Como é um vírus antigo
[evolutivamente falando] e está bem adaptado, a maioria das pessoas não
desenvolve as complicações mais graves, o próprio sistema imunológico do
paciente controla o vírus”, explica Arthur Maia Paiva, médico da Universidade
Federal de Alagoas, em Maceió.
Apesar de só entre 5% e 10% dos
portadores desenvolverem complicações médicas, estas podem ser graves e
inclusive fatais. Uma delas é a leucemia de células-T do adulto, um câncer das
células sanguíneas bastante agressivo. Outra, a que sofre João Paulo, é a
paraparesia espástica tropical, uma condição que afeta a medula espinal e pode
deixar o paciente em cadeira de rodas.
O alto número de pacientes
assintomáticos, unido ao fato de que, no caso da paraparesia, o desenvolvimento
da doença é progressivo ao longo de anos, dificulta o diagnóstico.
“Normalmente os pacientes nem percebem.
Têm uma dificuldade de subir escada, uma dor… Quem vai no médico quando tem
isso? É muito difícil. E às vezes vai e faz raio-X, tomografia, ressonância…
Geralmente isso está normal, e acaba acontecendo que a pessoa passa sete, às
vezes até dez anos, até descobrir a causa”, diz Jorge Casseb, médico do
Ambulatório de HTLV e professor associado do Instituto de Medicina Tropical da
Universidade de São Paulo.
Outro problema que contribui para
o largo intervalo entre o início dos sintomas e o diagnóstico é o
desconhecimento do HTLV-1 por parte dos próprios profissionais da saúde. O
professor Casseb menciona o caso de uma paciente do interior de São Paulo que
passou por 29 médicos até encontrar um que tinha sido residente no Ambulatório
de HTLV do Emílio Ribas e estava familiarizado com o vírus.
“Ele pediu a sorologia, que custa
uns 3 reais, e deu positivo. Mas se você não pensar e não pedir o exame, não
tem como identificar”, ele explicou.
O diagnóstico tardio reduz as
chances de melhora dos pacientes e supõe um alto custo para o sistema de saúde.
Para a médica Jerusa Smid, neurologista do Ambulatório de HTLV, o impacto da
doença na vida dos pacientes justifica um maior investimento na prevenção e
identificação do vírus.
“Se a autoridade pública colocar na
conta o paciente que vai evoluir para uma mielopatia [distúrbios que afetam a
medula], que vai se tornar dependente de cadeira de rodas no final da vida
dele, que tem uma incapacidade irreversível , progressiva, grave, que está
associada a uma maior taxa de infecção, a uma maior hospitalização, a um
paciente jovem, que para de trabalhar em uma faixa etária ainda economicamente
ativa. Então não entendemos como é que essa conta não considera esses
aspectos”, ela disse.
Sem cura, mas com solução
Existem três formas de contrair o
vírus: por relações sexuais desprotegidas, por contato com sangue infectado
(por transfusão, compartilhamento de seringas) e através do aleitamento
materno. Isso faz com que a doença se transmita principalmente dentro das
famílias, entre parceiros através de relação sexual, e de mães para filhos via
aleitamento. Por isso, cada novo paciente identificado vira um “fio” de origem
de novos portadores.
“O novelo grande está atrás da
porta [do ambulatório]. Você puxa aqui e não sabe o que vai ter lá fora”, diz
Casseb, que conta que a cada ano surgem uns 60 pacientes novos, quase sempre
por meio de testagens de familiares.
A forma mais efetiva de reduzir a
incidência do vírus na população é testar as gestantes e orientar as mães
portadoras do HTLV-1 a não amamentar os seus filhos, ou a fazê-lo por períodos
mais curtos. Com essa estratégia, cidades como Nagasaki, no Japão, conseguiram
reduzir a prevalência da doença de 20,3% para 2,5% em vinte anos.
No Brasil, os especialistas
consideram que estamos muito atrasados na luta contra o HTLV-1. Programas como
o de Nagasaki começaram a ser desenvolvidos há mais de 30 anos, enquanto aqui
ainda não existe nada parecido. Os bancos de sangue são testados desde 1993,
mas mesmo nesse caso só se faz uma prova de triagem, sendo que o diagnóstico
requer uma segunda prova confirmatória com um teste mais sensível. “E quando
você tem a sorologia [positiva para o HTLV-1], você não é encaminhado para
lugar nenhum”, disse Augusto Penalva, coordenador do Ambulatório de HTLV do
Emílio Ribas.
Adele Schwartz Benzaken, diretora
do Departamento de Vigilância, Prevenção e Controle das IST [infecções
sexualmente transmissíveis], do HIV/Aids e das Hepatites Virais do Ministério
da Saúde, disse que estão preparando um estudo nacional para o ano que vem para
conhecer a prevalência do HTLV-1 em gestantes no Brasil. O resultado servirá
para definir as linhas de ação futuras para combater a transmissão do HTLV-1 de
mães para filhos.
Benzaken espera que os resultados
estejam prontos antes do final de 2019. Além disso, o Ministério também disse
estar trabalhando na atualização do protocolo de HTLV-1. Quando estiver pronto,
o protocolo servirá de guia para a capacitação dos profissionais da saúde.
UOL
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Todos os recados postados neste mural são de inteira responsabilidade do autor, os recados que não estiverem de acordo com as normas de éticas serão vetado por conter expressões ofensivas e/ou impróprias, denúncias sem provas e/ou de cunho pessoal ou por atingir a imagem de terceiros.